O discurso ácido do deputado estadual Tércio Nogueira (PROS), ontem, na tribuna da Assembleia Legislativa (Alepa), em repúdio à sequência de mortes de agentes da Segurança Pública, provocou uma série de reações em outros deputados, inclusive da base. Soldado da Polícia Militar, ele chamou Simão Jatene (PSDB) e o comandante geral da Polícia Militar, Hilton Benigno, de “covardes”, “omissos”, “desnorteados” e “lesos”. “O governador está tocando a Segurança Pública tão mal quanto o violão, de forma desafinada. É preciso providência urgente”, disparou em sua fala.
Eliel Faustino (DEM), que é líder do Governo no parlamento, minimizou a força do comentário e relativizou. “O que ele [Tércio] está falando é o que ele acredita que a tropa tem de ouvir, afinal é ano de eleição. Não temos de discutir eleição em meio a uma crise de segurança pública que é nacional”, analisou.
Também da bancada aliada, Júnior Hage, do PDT, adotou uma postura mais condizente com o que a população tem sentido na pele diariamente e cobrou mais firmeza do Estado. “Estou no terceiro mandato e desde o início defendendo que PMs não oficiais, ou seja, cabos e soldados, precisam morar em áreas específicas criadas para a categoria. Como podem se defender morando ao lado de quem comete o crime? O Estado ouve há anos essa demanda e, quando tem uma crise, cria uma cúpula para inventar uma solução só para aquela crise, quando o problema é algo continuado.”
Ele assegurou ter defendido por diversas vezes, inclusive em audiências com Jatene, a troca do comando da Segurança Pública à época da gestão do general Jeannot Jansen. “Ele ouve pesquisas encomendadas pelo próprio Governo, mas não a classe política. A população quer resultado, e não conversa”, frisou Hage.
CALAMIDADE
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alepa, o petista Carlos Bordalo deve apresentar na próxima semana um requerimento para discutir a decretação de Estado de Emergência na Segurança Pública, o que facilitaria o deslocamento de verbas para medidas emergenciais.
Até agora o Governo do Estado enfrenta uma crise totalmente diferente das anteriores “com medidas de perfumaria”, afirmou. “Em quatro anos, estamos perto dos 15 mil assassinatos violentos. No quinto mês do ano, temos perto de mil assassinatos, já morreu metade do número de PMs mortos em 2017, e foram muitos. E, em dois dias, mais de 50 mortes registradas essa semana. É preciso que o Governo entenda que precisa reagir, não é administrar esperando que as facções e milícias entrem em acordo e parem a guerra”, cutucou.
“Se Jatene está constrangido para isso, que o parlamento tome essa iniciativa. Se for decretado, as verbas poderão ser mobilizadas e acompanhadas com rapidez por comitê formado pela Alepa, Defensoria Pública, Ministério Público."
NÚMEROS
59 mortes - É o número de homicídios registrados em todo o Estado do Pará desde a manhã do último domingo (29) até o fim da noite de ontem. A maior parte dos crimes está concentrada na Grande Belém, principalmente nos bairros periféricos, onde a população vive marginalizada.